{"id":336,"date":"2021-10-31T11:42:53","date_gmt":"2021-10-31T14:42:53","guid":{"rendered":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/?p=336"},"modified":"2022-12-11T16:46:35","modified_gmt":"2022-12-11T19:46:35","slug":"reforma-e-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/reforma-e-historia\/","title":{"rendered":"Reforma e Hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<p>Peter Leithart e Kevin Vanhoozer, dois importantes te\u00f3logos protestantes contempor\u00e2neos, h\u00e1 pouco mais de tr\u00eas anos, tiveram uma agrad\u00e1vel conversa sobre o destino do protestantismo.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o central, que orientou toda a discuss\u00e3o, havia sido esta: o projeto da Reforma, visto hoje em retrospectiva, est\u00e1 perante seu <em>terminus<\/em> [fim] ou seu <em>t\u00e9los <\/em>[cumprimento]? Dito de outro modo, \u00e9 poss\u00edvel que estejamos, segundo esses te\u00f3logos, diante desta alternativa:<\/p>\n\n\n\n<ol type=\"1\"><li>o protestantismo \u00e9 uma esp\u00e9cie de andaime, que ser\u00e1 retirado t\u00e3o logo se conclua a obra de reforma da igreja; Essa vis\u00e3o \u00e9 positiva num aspecto: mostra que os reformadores originalmente n\u00e3o buscavam uma cis\u00e3o, uma divis\u00e3o no seio da Igreja Ocidental, mas simplesmente apresentavam linhas de for\u00e7as que atravessariam toda a teologia e vida eclesi\u00e1stica, a fim de renov\u00e1-las, de \u201creconcili\u00e1-las\u201d com a mensagem b\u00edblica, que garante nossa continuidade e unidade com os ap\u00f3stolos e portanto nossa <em>catolicidade<\/em>. Nesse sentido, o protestantismo teria cumprido seu prop\u00f3sito, seu t\u00e9los, assim que todas as igrejas, ou ao menos sua maioria, tivessem reconhecido o papel e autoridade superior (mas n\u00e3o exclusiva) das Escrituras na organiza\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica e na formula\u00e7\u00e3o da teologia. Desse modo, ainda que as diferen\u00e7as se mantivessem, bastava a igreja manter-se centrada em torno da B\u00edblia e dos sacramentos, e o protestantismo se dissolveria, uma vez que teria cumprido sua miss\u00e3o.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<ul><li><em>Ou<\/em>, com a crise que o protestantismo hoje enfrenta (assim como outras tradi\u00e7\u00f5es crist\u00e3s), precisamos aceitar que o projeto dos reformadores chegou agora ao seu fim, e, a despeito de seus esfor\u00e7os e m\u00e9ritos (afinal, o protestantismo, com suas miss\u00f5es, internacionalismo e uso da imprensa, levou o cristianismo aos quatro cantos da terra), a tradi\u00e7\u00e3o protestante encara agora seu <em>terminus<\/em>, um beco sem sa\u00edda. Obviamente, isto <em>n\u00e3o<\/em> implica que as denomina\u00e7\u00f5es protestantes desaparecer\u00e3o e n\u00e3o haver\u00e1 mais convers\u00f5es a essa tradi\u00e7\u00e3o&#8230; Na verdade, essas comunidades permanecer\u00e3o assim talvez at\u00e9 ao fim dos tempos, por\u00e9m n\u00e3o mais com o \u00edmpeto e prop\u00f3sito de servirem de andaime para a <em>reforma<\/em> da Igreja, mas apenas como n\u00facleos de f\u00e9 que, sim, evangelizam e crescem, por\u00e9m sem se esfor\u00e7arem pela reunifica\u00e7\u00e3o da Igreja.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Esses dois caminhos \u2013 que talvez n\u00e3o sejam os \u00fanicos \u2013 s\u00e3o igualmente persuasivos, e cada um tem ao seu lado uma s\u00e9rie de evid\u00eancias para convencer-nos. O grande problema, no entanto, \u00e9 que o protestante do s\u00e9culo XXI, assim como os cat\u00f3licos romanos e os ortodoxos, n\u00e3o mais vivem no dom\u00ednio sem\u00e2ntico, cultural e social no qual viveram os reformadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois, afinal, cat\u00f3licos e protestantes, nos s\u00e9culos XVI e XVII, compartilhavam n\u00e3o somente de um n\u00facleo de f\u00e9,<a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a> de doutrinas basilares e pr\u00e1ticas lit\u00fargicas semelhantes, mas tamb\u00e9m tinham em comum uma s\u00e9rie de comportamentos, valores morais, no\u00e7\u00f5es e princ\u00edpios sociais e mesmo perspectivas semelhantes ou id\u00eanticas sobre o universo e a natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>O crist\u00e3o do s\u00e9culo XXI (a despeito da tradi\u00e7\u00e3o a que pertence) vive num sistema \u00e9tico e intelectual que, muitas vezes, se mostra hostil n\u00e3o \u00e0s particularidades de sua f\u00e9, mas \u00e0 pr\u00f3pria f\u00e9. Ao contr\u00e1rio do que muitos crist\u00e3os aparentemente creem, n\u00e3o \u00e9 apenas a \u00e9tica sexual crist\u00e3 que destoa e \u201crepugna\u201d aos n\u00e3o crist\u00e3os deste s\u00e9culo. Antes, nesta era do utilitarismo, a caridade crist\u00e3, que pratica o amor da autodoa\u00e7\u00e3o e da disponibilidade, \u00e9 tida ou como ingenuidade, ou como irresponsabilidade (conforme se v\u00ea na cr\u00edtica de muitos liberais, que veem a d\u00e1diva e o cuidado dos pobres como antinatural); ou, ainda, nesta era da indigna\u00e7\u00e3o, a Eucaristia (a a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as), feita \u00e0 mesa do Senhor, \u00e9 vista como aliena\u00e7\u00e3o ou leni\u00eancia para com os males do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 muitos inimigos \u00e0 porta, e \u00e9 ainda necess\u00e1rio que a igreja demonstre que as \u201clutas de classes\u201d, as oposi\u00e7\u00f5es na arena p\u00fablica e as cis\u00f5es sociais s\u00f3 s\u00e3o remediadas pela comunh\u00e3o e unidade espiritual em Cristo Jesus. \u00c9 ele que nos serve de mediador entre Deus e <em>demais seres humanos<\/em>. A unidade na f\u00e9, no batismo e na Eucaristia continua sendo (e sempre ser\u00e1) uma vit\u00f3ria e testemunho contra as obras do Diabo, que trabalha sempre com a acusa\u00e7\u00e3o, com a fragmenta\u00e7\u00e3o e divis\u00e3o tanto do indiv\u00edduo quanto do corpo social.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a Reforma Protestante continua tendo seu valor, conforme nos lembra que o sacramento \u00e9 sempre uma uni\u00e3o entre palavra, f\u00e9, a\u00e7\u00e3o e elemento material (p\u00e3o e vinho). Deus transmite sua gra\u00e7a por meios f\u00edsicos a pessoas reais \u2013 a Cidade de Deus \u00e9 espiritual, mas se manifesta na vida cotidiana e concreta de homens e mulheres que vivem na hist\u00f3ria. E estes anunciam que a Palavra de Deus, embora vinda da eternidade, se dirige e altera radicalmente esta hist\u00f3ria, como se viu no s\u00e9culo XVI e como talvez vejamos (se esta \u00e9 a vontade divina) neste s\u00e9culo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> Lutero, Calvino, Bucer, Mel\u00e2ncton e outros asseveram a autoridade dos conc\u00edlios ecum\u00eanicos e suas determina\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas que guiaram a igreja ao longo, bem como a necessidade dos sacramentos para a integra\u00e7\u00e3o ao Corpo de Cristo.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Peter Leithart e Kevin Vanhoozer, dois importantes te\u00f3logos protestantes contempor\u00e2neos, h\u00e1 pouco mais de tr\u00eas anos, tiveram uma agrad\u00e1vel conversa sobre o destino do protestantismo. 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