{"id":547,"date":"2021-12-30T09:50:29","date_gmt":"2021-12-30T12:50:29","guid":{"rendered":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/?p=547"},"modified":"2022-12-11T16:46:34","modified_gmt":"2022-12-11T19:46:34","slug":"resenha-o-mundo-e-a-pessoa-de-romano-guardini","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/resenha-o-mundo-e-a-pessoa-de-romano-guardini\/","title":{"rendered":"O mundo e a pessoa, de Romano Guardini"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/elshaddai.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/o-mundo-e-a-pessoa-romano-guardini-e1640720761933.jpg\" alt=\"O Mundo e a Pessoa | Romano Guardini\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Nas d\u00e9cadas que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial, n\u00e3o raro, os te\u00f3logos das diversas tradi\u00e7\u00f5es crist\u00e3s \u2013 levando em considera\u00e7\u00e3o as vis\u00f5es ideol\u00f3gicas e filos\u00f3ficas acerca do homem das d\u00e9cadas precedentes, e buscando uma resposta ou ao menos uma linha de sentido que ajudasse as comunidades religiosas e mesmo humanistas a compreenderem o incontorn\u00e1vel processo de desumaniza\u00e7\u00e3o dos totalitarismos \u2013 apresentaram propostas t\u00edmidas e apenas ensaiaram que se reconhecesse um humilde lugar para a vis\u00e3o crist\u00e3 da personalidade dentre as demais antropologias filos\u00f3ficas que ent\u00e3o grassavam.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos pensadores crist\u00e3os diziam, simplesmente, que o entendimento b\u00edblico acerca do ser humano seria, se n\u00e3o um ant\u00eddoto, ao menos um paliativo para os processos de despersonaliza\u00e7\u00e3o que haviam se iniciado nos nazifascismos e no comunismo \u2013 especialmente por meio da \u201cpropaganda\u201d e da difus\u00e3o de ideias parasit\u00e1rias mediante os meios de comunica\u00e7\u00e3o em massa \u2013, assim como para os ritmos antinaturais que as for\u00e7as industriais e tecnocr\u00e1ticas ent\u00e3o impunham aos seres humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Poucos fil\u00f3sofos ou te\u00f3logos crist\u00e3os, no entanto, se dedicaram (arriscadamente) \u00e0 retomada ou atualiza\u00e7\u00e3o de uma antropologia filos\u00f3fica crist\u00e3, que afirmasse, a partir das Escrituras e da tradi\u00e7\u00e3o, quem \u00e9 o homem e qual \u00e9 o fim de sua exist\u00eancia. \u00c9 o caso de Romano Guardini, que, em 1939, ano de in\u00edcio da Segunda Guerra Mundial, publicou sua c\u00e9lebre obra&nbsp;<em>O mundo e a pessoa: ensaios de uma teoria crist\u00e3 do homem.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Para Guardini, as indaga\u00e7\u00e3o acerca da natureza e finalidade humanas estariam evidentemente alicer\u00e7adas no ato de sua&nbsp;<em>cria\u00e7\u00e3o&nbsp;<\/em>\u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus, de modo que o ser humano&nbsp;<em>sempre<\/em>&nbsp;se constitui a partir de uma rela\u00e7\u00e3o com sua Origem, seja por meio da submiss\u00e3o amorosa, da indiferen\u00e7a ou da revolta. Essa rela\u00e7\u00e3o vertical com a Pessoa Absoluta, diz-nos ele, se refrata na comunh\u00e3o horizontal com os semelhantes, pois \u201co destino pessoal apenas surge na rela\u00e7\u00e3o \u2018eu-tu\u2019 em que os dois seres enfim desarmados est\u00e3o abertos um ao outro \u2014 ou, ent\u00e3o, na rela\u00e7\u00e3o inacabada em que o apelo do \u2018eu\u2019 n\u00e3o encontra resposta\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, Guardini \u00e9 um observador arguto do mundo moderno, e por isso rejeita, em sua argumenta\u00e7\u00e3o sempre sofisticada, as enumera\u00e7\u00f5es prontas e f\u00e1ceis dos v\u00edcios e virtudes de sua \u00e9poca. Pelo contr\u00e1rio, sua obra \u00e9, com efeito, uma&nbsp;<em>teoria<\/em>&nbsp;crist\u00e3, conduzida por um racioc\u00ednio que jamais repousa na iman\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, embora reconhe\u00e7a pontos positivos no ideal da liberdade e autonomia modernas, Guardini contrap\u00f5e-se \u00e0 vis\u00e3o moderna do homem, que geralmente parte de uma autodetermina\u00e7\u00e3o radical e caprichosa e concebe a personalidade antes como projeto do que como&nbsp;<em>l\u00f3cus<\/em>&nbsp;de reconcilia\u00e7\u00e3o entre o vis\u00edvel e o invis\u00edvel (e como polo de influxo da gra\u00e7a), e afirma peremptoriamente que \u201ca soberania do homem sobre o mundo s\u00f3 \u00e9 justificada, e, at\u00e9, somente poss\u00edvel, gra\u00e7as \u00e0 sua obedi\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a Deus\u201d. E mais: perante a imagem de um mundo que, na perspectiva secularista, aparentemente se desfaz, o te\u00f3logo nos relembra que \u201co criado s\u00f3 existe \u2018perante ele [Deus]\u2019, e subsiste ontologicamente \u2018na obedi\u00eancia\u2019. E \u00e9 precisamente por isso que o mundo \u00e9 o que \u00e9 e que \u00e9 real enquanto mundo\u2026 S\u00f3 a partir de Deus pode o mundo constituir realmente o objeto de uma experi\u00eancia\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Link para adquirir na Amazon:\u00a0<\/strong><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/amzn.to\/3q5KPra\" target=\"_blank\">https:\/\/amzn.to\/3q5KPra<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Texto apareceu originalmente no site da\u00a0<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/monergismo.com\/novo\/vida-crista\/melhores-livros-de-2021\/?fbclid=IwAR24smwc4gg5EcUwnvuZQxz8dVHjmt9Gf1lNSJzVDHCbkcPQJKWBrvRZzjw\" target=\"_blank\">Editora Crist\u00e3 Monergismo<\/a>, em sua lista dos melhores livros de 2021.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas d\u00e9cadas que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial, n\u00e3o raro, os te\u00f3logos das diversas tradi\u00e7\u00f5es crist\u00e3s \u2013 levando em considera\u00e7\u00e3o as vis\u00f5es ideol\u00f3gicas e filos\u00f3ficas acerca do homem das d\u00e9cadas precedentes, e buscando uma resposta ou ao menos uma linha de sentido que ajudasse as comunidades religiosas e mesmo humanistas a compreenderem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[88],"tags":[20,45,44],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/547"}],"collection":[{"href":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=547"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/547\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":774,"href":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/547\/revisions\/774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=547"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=547"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=547"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}