{"id":60,"date":"2020-01-25T15:46:46","date_gmt":"2020-01-25T18:46:46","guid":{"rendered":"http:\/\/iro.org.br\/blog\/?p=60"},"modified":"2022-12-11T16:47:02","modified_gmt":"2022-12-11T19:47:02","slug":"a-essencia-singular-da-fe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/a-essencia-singular-da-fe\/","title":{"rendered":"A ess\u00eancia singular da f\u00e9"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Wilhelm \u00e0 Brakel<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Tendo visto o objeto da f\u00e9, partamos agora em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 forma ou \u00e0 ess\u00eancia singular e natureza da f\u00e9. A ess\u00eancia de algo \u00e9 aquilo que faz com que este algo seja o que \u00e9. A ess\u00eancia de uma coisa a identifica e a distingue de todas as demais coisas. Uma coisa pode possuir apenas uma \u00fanica ess\u00eancia. Logo, se h\u00e1 duas ess\u00eancias, h\u00e1 tamb\u00e9m duas coisas. Portanto, de semelhante modo, a f\u00e9 possui uma ess\u00eancia que lhe \u00e9 exclusiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste ponto, devemos notar em que consiste (e tamb\u00e9m em que n\u00e3o consiste) a natureza essencial da f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Em primeiro lugar<\/em>, a f\u00e9 n\u00e3o consiste em amor, que \u00e9 aquilo que os papistas e os arminianos afirmam. O amor n\u00e3o \u00e9 a ess\u00eancia da f\u00e9, pois <strong>1) <\/strong>f\u00e9 e amor s\u00e3o duas virtudes distintas: \u201cAgora, pois, permanecem a f\u00e9, a esperan\u00e7a e o amor, estes tr\u00eas; por\u00e9m o maior destes \u00e9 o amor\u201d <cite>(1Co 13:13)<\/cite>. \u00c9 demasiado \u00f3bvio que uma virtude n\u00e3o pode ser a ess\u00eancia de uma outra. <strong>2) <\/strong>O amor \u00e9 o fruto da f\u00e9. Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncis\u00e3o, nem a incircuncis\u00e3o t\u00eam valor algum, mas a f\u00e9 que atua pelo amor <cite>(Gl 5:6)<\/cite>. A f\u00e9, portanto, n\u00e3o extrai sua efic\u00e1cia do amor; antes, a f\u00e9 \u00e9 eficaz para a opera\u00e7\u00e3o do amor, assim como a pr\u00e1tica de toda virtude por meio do amor. Atentem-se tamb\u00e9m para o \u00edmpeto da palavra ??????? (energeo) <cite>(cf. Rm 7:5; Cl 1:29)<\/cite>. O resultado de algo n\u00e3o pode ser sua ess\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Em segundo lugar<\/em>, a f\u00e9 n\u00e3o consiste na obedi\u00eancia e observ\u00e2ncia dos mandamentos de Deus, que \u00e9 algo que as partes supramencionadas afirmam. Pois a f\u00e9 se distingue expressamente das obras <cite>(1Co 13:13)<\/cite>. E tamb\u00e9m: \u201cOra, o intuito da presente admoesta\u00e7\u00e3o visa ao amor que procede de cora\u00e7\u00e3o puro, e de consci\u00eancia boa, e de f\u00e9 sem hipocrisia\u201d <cite>(1Tm 1:5)<\/cite>. Sim, na quest\u00e3o da justifica\u00e7\u00e3o, as obras e a f\u00e9 s\u00e3o contrastadas. Conclu\u00edmos, pois, que o homem \u00e9 justificado pela f\u00e9, independentemente das obras da lei <cite>(Rm 3:28)<\/cite>. Mas algu\u00e9m dir\u00e1: Tu tens f\u00e9, e eu tenho obras <cite>(Tg 2:18)<\/cite>.<br><\/p>\n\n\n\n<p>A f\u00e9 verdadeira \u00e9 a fonte das boas obras. Estas s\u00e3o frutos e caracter\u00edstica da f\u00e9, tornando-se evidente, portanto, que onde as boas obras est\u00e3o ausentes, tamb\u00e9m a f\u00e9 verdadeira est\u00e1 ausente. \u201cPorque, assim como o corpo sem esp\u00edrito \u00e9 morto, assim tamb\u00e9m a f\u00e9 sem obras \u00e9 morta\u201d <cite>(Tg 2:26)<\/cite>. Certamente o corpo est\u00e1 morto, caso a respira\u00e7\u00e3o tenha cessado. Semelhantemente, tal f\u00e9 est\u00e1 morta, isto \u00e9, a verdadeira f\u00e9 n\u00e3o est\u00e1 presente quando ela n\u00e3o se manifesta.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo se sustentarmos que o amor e a observ\u00e2ncia dos mandamentos n\u00e3o s\u00e3o a forma ou natureza essencial da f\u00e9, longe esteja de n\u00f3s sustentar que a f\u00e9 pode existir sem o amor. Quando um homem se torna um crente, ele n\u00e3o apenas recebe ilumina\u00e7\u00e3o aos olhos do entendimento e em certo grau se torna familiarizado com o Mediador e os benef\u00edcios da alian\u00e7a, mas tamb\u00e9m se torna, desse modo, amorosamente cativo. O crente se regozija no fato de que h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o, perd\u00e3o de pecados e um Esp\u00edrito que o santifica. Ele se regozija no fato de que h\u00e1 um Cristo e que este lhe \u00e9 oferecido. Ele tem amor pela verdade <cite>(2Ts 2:10)<\/cite>. Tendo agora recebido e tendo sido unido a Cristo pela f\u00e9, seu amor para com Deus e Cristo \u00e9 inflamado, e com toda sua disposi\u00e7\u00e3o ele deseja ser obediente. N\u00f3s amamos porque ele nos amou primeiro <cite>(1Jo 4:19)<\/cite>.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Em terceiro lugar<\/em>, a ess\u00eancia mesma da f\u00e9 n\u00e3o consiste em confiar que Cristo \u00e9 meu Salvador, uma vez que:<\/p>\n\n\n\n<p>(1) Cristo n\u00e3o morreu por todos os homens. Todo indiv\u00edduo precisaria, portanto, de fundamentos s\u00f3lidos a partir dos quais seria capaz de concluir que Cristo morreu por ele e \u00e9, pois, seu Salvador.<\/p>\n\n\n\n<p>(2) Deus de fato ordenou que todos que ouvissem sua palavra cressem, mas n\u00e3o ordenou que todos cressem que Cristo \u00e9 seu Salvador. N\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico texto na B\u00edblia para apoiar isso, de maneira que \u00e9 simples imagina\u00e7\u00e3o afirmar que todos devem crer que Cristo \u00e9 seu Salvador. Se assim fosse, ele creria numa mentira e iria para o inferno ao aderir a tal ilus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>(3) Crer que Cristo \u00e9 meu Salvador pertence \u00e0 certeza, que \u00e9 um fruto da f\u00e9, o qual pode variar em grau e pode, pois, estar inteiramente ausente. Portanto, a f\u00e9 verdadeira permanece, e aquele que a possui permanece um verdadeiro crente.<\/p>\n\n\n\n<p>(4) V\u00e1rios indiv\u00edduos que creram temporariamente est\u00e3o plenamente seguros de si mesmos e n\u00e3o possuem a menor d\u00favida de que Cristo \u00e9 seu Salvador e morreu por eles. Eles, todavia, n\u00e3o possuem f\u00e9 verdadeira e encontrar-se-\u00e3o em engano. Segue, pois, que a f\u00e9 verdadeira n\u00e3o consiste em confiar que Cristo morreu por mim.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Em quarto lugar<\/em>, a ess\u00eancia da f\u00e9 n\u00e3o consiste em desejar ter Jesus como Salvador. Desejar, ou dispor-se, pode ser considerado como um ato interno. Uma pessoa percebe a verdade, a necessidade e a excel\u00eancia de ter Jesus como seu Salvador, e assim deseja t\u00ea-lo como tal. Esse desejo interno incide no objeto em si, mas n\u00e3o nas circunst\u00e2ncias concomitantes \u2013 tais como a necessidade de se abandonar a vida mundana, de buscar Cristo em verdade (agindo assim frequentemente), de entrar verdadeiramente em alian\u00e7a com Cristo, encontrando somente nele seu deleite. Tamb\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio ao crente tomar o mundo como seu inimigo, testemunhando e batalhando contra ele, e estar disposto, por amor a Cristo, a suportar toda pobreza, nudez, persegui\u00e7\u00f5es e zombaria. Isto, contudo, n\u00e3o condiz com tais pessoas, e, portanto, eles abandonam por aquilo que ele \u00e9, cedendo, portanto, \u00e0s suas concupisc\u00eancias. Desse modo, o desejo deles nada mais \u00e9 do que o desejo de Bala\u00e3o: <em>Que eu morraQue eu morra a morte dos justos, e o meu fim seja como o dele<\/em> <cite>(Nm 23:10)<\/cite>.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Esse desejo pode ser tamb\u00e9m de uma natureza extrovertida, isto \u00e9, o ser que se expande em dire\u00e7\u00e3o a Cristo, por meio do qual determinada pessoa demonstra ao Senhor Jesus seu desejo vertical por ele e seus benef\u00edcios, com o esquecimento de tudo o mais. Uma vez que seu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o o condena, isso lhe d\u00e1 liberdade para ir a Cristo e receb\u00ea-lo pela f\u00e9 como seu Salvador. Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de gra\u00e7a a \u00e1gua da vida <cite>(Ap 22:17)<\/cite>. Desse modo, visto que o desejo <em>n\u00e3o precede<\/em> o exerc\u00edcio da f\u00e9, conforme se medita na natureza da quest\u00e3o, sempre que exista um desejo t\u00e3o expansivo, existe tamb\u00e9m a verdadeira f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Em quinto lugar, a ess\u00eancia da f\u00e9 n\u00e3o consiste num assentimento da verdade do Evangelho. Uma pessoa pode ter uma compreens\u00e3o bastante clara de todos os mist\u00e9rios da f\u00e9, no que diz respeito tanto \u00e0s suas verdades quanto \u00e0 sua excel\u00eancia. Ainda que aquies\u00e7a com plena confian\u00e7a a essas verdades como verdades, bem como \u00e0 excel\u00eancia delas, isto ainda n\u00e3o \u00e9 verdadeira f\u00e9. De fato, \u00e9 certo que os crentes tamb\u00e9m possuem conhecimento e assentimento, contudo, n\u00e3o podem se apoiar nisso. Eles sabem e t\u00eam experi\u00eancia que esses elementos n\u00e3o os levam a tornar-se participantes de Cristo, e, portanto, eles v\u00e3o al\u00e9m e se apropriam de Cristo. Eles se apoiam nele, confiando seus corpos e almas a Cristo, para que ele possa justific\u00e1-los. Portanto, se um homem n\u00e3o possui nada mais do que o conhecimento e assentimento, ele pode estar certo de que possui meramente a f\u00e9 hist\u00f3rica ou temporal. Por\u00e9m, se um indiv\u00edduo percebe dentro de si mesmo o exerc\u00edcio real da confian\u00e7a em Cristo, considerando-a como um fruto de seu assentimento (tomando-o como o ato essencial da f\u00e9), ele de fato possui a verdadeira f\u00e9. Contudo, ele est\u00e1 equivocado ao considerar que o conhecimento \u00e9 a natureza essencial da f\u00e9. Ilustraremos isto mais adiante na quest\u00e3o que se segue. A ess\u00eancia singular ou forma da f\u00e9 n\u00e3o consiste, pois, nessas seis quest\u00f5es supramencionadas. Devemos, portanto, considerar agora em que consiste o ato singular e essencial da f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quest\u00e3o<\/strong>: O ato essencial da f\u00e9 consiste em assentir \u00e0s verdades divinas e \u00e0s promessas do Evangelho, ou, antes, consiste numa confian\u00e7a sincera em Cristo para ser justificado, santificado e conduzido, por ele, \u00e0 felicidade?<\/p>\n\n\n\n<p><em>Resposta<\/em>: Antes de respondermos, queremos afirmar que:<\/p>\n\n\n\n<p>(1) N\u00e3o entendemos essa confian\u00e7a em Cristo como equivalente \u00e0 certeza \u2013 a convic\u00e7\u00e3o de que se \u00e9 pessoalmente um participante de Cristo e de todas suas promessas, ou a paz e quietude resultantes dentro da alma, pois todas estas s\u00e3o frutos da f\u00e9, que s\u00e3o mais evidentes em um, e menos em outro. Pelo contr\u00e1rio, entendemos por confiar o ato expansivo [din\u00e2mico] do cora\u00e7\u00e3o por meio do qual o homem, ao se render e receber a Cristo, confia-lhe corpo e alma, a fim de que ele possa salv\u00e1-lo. Podemos compar\u00e1-lo a um credor que confia seu dinheiro a algu\u00e9m, dando-o. De semelhante modo, podemos tamb\u00e9m compar\u00e1-lo a algu\u00e9m que, colocando-se sobre os ombros de um homem robusto a fim de ser carregado atrav\u00e9s de um rio, confia nele, inclinando-se e fiando-se nele, permitindo-se, desse modo, ser conduzido ao local designado.<\/p>\n\n\n\n<p>(2) Afirmamos que um conhecimento das verdades do Evangelho e o assentimento a elas s\u00e3o os pr\u00e9-requisitos necess\u00e1rios para tal confian\u00e7a. Sustentamos, ainda, que, posteriormente, a f\u00e9 tamb\u00e9m se foca continuamente sobre e \u00e9 ativada pelas promessas.<\/p>\n\n\n\n<figcaption>Foto do post por <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/@patrickian4?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Patrick Fore<\/a> no <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText\">Unsplash<\/a> <\/figcaption>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta tradu\u00e7\u00e3o do texto do reformador Wilhelmus \u00e0 Brakel, somos convidados a refletir no que consiste \u2013 e no que n\u00e3o consiste \u2013 a ess\u00eancia da f\u00e9.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":61,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[12,10,13,11,14],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60"}],"collection":[{"href":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":126,"href":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60\/revisions\/126"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/61"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}