{"id":787,"date":"2022-12-11T17:22:10","date_gmt":"2022-12-11T20:22:10","guid":{"rendered":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/?p=787"},"modified":"2022-12-11T17:22:10","modified_gmt":"2022-12-11T20:22:10","slug":"tradicao-e-apocalipse","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/iro.org.br\/blog\/tradicao-e-apocalipse\/","title":{"rendered":"Tradi\u00e7\u00e3o e Apocalipse"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Carl-Friedrich-Lessing-Monastery-Courtyard-in-Snow-1829-1024x835.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-815\" width=\"610\" height=\"497\" srcset=\"https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Carl-Friedrich-Lessing-Monastery-Courtyard-in-Snow-1829-1024x835.jpg 1024w, https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Carl-Friedrich-Lessing-Monastery-Courtyard-in-Snow-1829-300x245.jpg 300w, https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Carl-Friedrich-Lessing-Monastery-Courtyard-in-Snow-1829-768x626.jpg 768w, https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Carl-Friedrich-Lessing-Monastery-Courtyard-in-Snow-1829-1536x1253.jpg 1536w, https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Carl-Friedrich-Lessing-Monastery-Courtyard-in-Snow-1829-2048x1670.jpg 2048w, https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Carl-Friedrich-Lessing-Monastery-Courtyard-in-Snow-1829-1200x979.jpg 1200w, https:\/\/iro.org.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Carl-Friedrich-Lessing-Monastery-Courtyard-in-Snow-1829-1980x1615.jpg 1980w\" sizes=\"(max-width: 610px) 100vw, 610px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Pintura: Klosterhof im Schnee (P\u00e1tio do claustro na neve), por Karl Friedrich Lessing (1829). Museu Wallraf\u2013Richartz, Col\u00f4nia, Alemanha<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\">Texto original: Peter Leithart<\/p>\n\n\n\n<p>David Bentley Hart diz muitas coisas perspicazes acerca da tradi\u00e7\u00e3o e tradicionalismo na se\u00e7\u00e3o inicial de <em>Tradition and Apocalypse<\/em> [Tradi\u00e7\u00e3o e apocalipse], sua nova obra. O conceito de tradi\u00e7\u00e3o formulado por John Henry Newman em seu livro <em>Ensaio sobre o desenvolvimento da doutrina crist\u00e3<\/em> (1845) e revisado por Maurice Blondel em seu volume <em>Histoire et dogma <\/em>[Hist\u00f3ria e dogma], publicado em 1904, \u00e9, segundo Hart, \u201cuma ideia muito recente, relativamente falando, e sem ra\u00edzes muito profundas <em>na <\/em>tradi\u00e7\u00e3o da igreja\u201d (p. 2). Na perspectiva de Hart, trata-se tamb\u00e9m de uma ideia incoerente.<\/p>\n\n\n\n<p>O que Newman inventou foi um conceito <em>teol\u00f3gico<\/em> de tradi\u00e7\u00e3o como \u201cuma unidade racional e indivis\u00edvel que de algum modo subsiste na hist\u00f3ria e que engloba inumer\u00e1veis transforma\u00e7\u00f5es amplas, consp\u00edcuas e substanciais\u201d. Diz-se que a tradi\u00e7\u00e3o tem uma unidade org\u00e2nica e l\u00f3gica, um \u201ccont\u00ednuo <em>causal<\/em>\u201d, no sentido aristot\u00e9lico: \u201ca unidade essencial de uma \u2018subst\u00e2ncia\u2019 peculiar identific\u00e1vel, com uma entel\u00e9quia que lhe \u00e9 intr\u00ednseca e que lhe permite desenvolver e alterar-se ao mesmo tempo que continua sendo inteiramente o que \u00e9\u201d. O conceito teol\u00f3gico de tradi\u00e7\u00e3o entende que esta \u00e9 uma \u201ctradi\u00e7\u00e3o viva&#8230; moldada por um conte\u00fado formal, real e exclusivo e por um poder eficiente de desenvolvimento cujos efeitos s\u00e3o determinados por uma finalidade inerente e intencional\u201d (p. 9-10).<\/p>\n\n\n\n<p>Esse conceito \u00e9 uma esp\u00e9cie de publicidade agressiva; primeiramente em raz\u00e3o da natureza da proposi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 essencial. Diferentemente de outras religi\u00f5es que transmitem \u201ccerta verdade invari\u00e1vel\u201d de era em era, a f\u00e9 crist\u00e3 \u00e9 \u201cuma hist\u00f3ria particular e local que intenta desvelar-se como a verdade eterna e universal de todas as coisas\u201d. Os eventos hist\u00f3ricos particulares n\u00e3o s\u00e3o meios de desvelar determinado conte\u00fado atemporal; os eventos <em>s\u00e3o<\/em> \u201co conte\u00fado daquilo que foi desse modo revelado\u201d. De um modo absurdo, \u201ctodo o edif\u00edcio da verdade eterna [equilibra-se] sobre um fundamento min\u00fasculo, t\u00eanue e evanescente de um epis\u00f3dio fugazmente temporal\u201d. O cristianismo apreende nossa aten\u00e7\u00e3o \u201cprincipalmente por sua implausibilidade\u201d. As afirma\u00e7\u00f5es fundamentais dos crist\u00e3os foram sendo elaboradas com \u201cassevera\u00e7\u00f5es cada vez <em>a-hist\u00f3ricas<\/em> acerca do ser, ou da natureza ou da supranatureza\u201d; contudo, o n\u00facleo duro da reflex\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 \u201csempre um conjunto de ocorr\u00eancias que alegadamente ocorreram nesta ou naquela localidade, e de palavras que foram supostamente proferidas por esta ou aquela pessoa\u201d (p. 4-5). O \u201cesc\u00e2ndalo da particularidade\u201d n\u00e3o pode ser eliminado.<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo em vista a \u201cdelicadeza cativante\u201d e a \u201cfragilidade\u201d das declara\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, um conceito teol\u00f3gico de tradi\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 cred\u00edvel se apresentar a ascens\u00e3o e elabora\u00e7\u00e3o do cristianismo \u201ccomo sendo, ao mesmo tempo, a narrativa da preserva\u00e7\u00e3o ininterrupta de um conte\u00fado dogm\u00e1tico imut\u00e1vel, racionalmente coerente e sempre impl\u00edcito e a narrativa do processo din\u00e2mico de uma cristaliza\u00e7\u00e3o, clarifica\u00e7\u00e3o e descerramento expl\u00edcitos desse conte\u00fado em ideias, palavras e pr\u00e1ticas\u201d (p. 5). Uma teoria da tradi\u00e7\u00e3o deve \u201cexplicar tudo na cren\u00e7a crist\u00e3 que n\u00e3o se alterou ao longo do tempo, bem como tudo aquilo que se alterou\u201d (p. 5). Ora, isto \u2013 argumenta Hart \u2013 \u00e9 algo que n\u00e3o pode ser feito; e o que Newman em \u00faltima an\u00e1lise oferece \u00e9 apenas uma reconstru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do desenvolvimento doutrinal que \u00e9 concebido como sendo inevit\u00e1vel. \u00c9 \u201cum truque de ilusionista\u201d. Newman e seus imitadores se esfor\u00e7am \u201cpara impor um consenso e para dissolver discord\u00e2ncias que haviam permanecido sem serem identificadas ao longo de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de crentes; e, desse modo, alterar o registro a fim de produzir a impress\u00e3o de que um armist\u00edcio assim obtido n\u00e3o era sen\u00e3o a express\u00e3o mais pura poss\u00edvel de algo intrepidamente confessado <em>ubique, semper et ab omnibus<\/em>\u201d (isto \u00e9, \u201cem toda parte, sempre e por todos\u201d) (p. 8-9). Mesmo que todos os esfor\u00e7os tenham produzido \u201cum nexo de formula\u00e7\u00f5es dogm\u00e1ticas inovadoras\u201d (p. 9), a no\u00e7\u00e3o de tradi\u00e7\u00e3o engendrou a continuidade ao usar \u201co conceito narrativo abrangente de que tudo que gradualmente surgiu, ao longo do tempo, nos limites da tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma explana\u00e7\u00e3o fiel de verdades presentes de uma forma latente desde o princ\u00edpio\u201d (p. 12).<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, a hist\u00f3ria \u00e9 uma grande confus\u00e3o, inclusive a hist\u00f3ria da igreja, que <em>n\u00e3o \u00e9<\/em> \u201co registro de um dep\u00f3sito de cren\u00e7as que se desvelam inexoravelmente e j\u00e1 totalmente integradas nos momentos primordiais da revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3\u201d (p. 18-19). Os historiadores do cristianismo primitivo est\u00e3o \u201cconscientes da pluralidade e das contradi\u00e7\u00f5es das primeiras fac\u00e7\u00f5es crist\u00e3s, bem como dos desvios aparentemente colossais da tradi\u00e7\u00e3o posterior em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que a evid\u00eancia nos indica acerca daqueles s\u00e9culos\u201d. Essa rugosidade tem pouco impacto na teologia sistem\u00e1tica ou na dogm\u00e1tica, j\u00e1 que a teologia e os estudos acerca do cristianismo primitivo est\u00e3o \u201crigidamente isolados um do outro\u201d (p. 19-20). Pode-se evocar exitosamente a \u201ctradi\u00e7\u00e3o\u201d apenas se se olhar de soslaio ou mesmo se se desviar o olhar dessa tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Hart acredita que o fracasso de Newman produziu, no entanto, um admir\u00e1vel sucesso: o cardeal efetivamente demoliu o tradicional<em>ismo<\/em> ao mostrar que a coer\u00eancia e credibilidade do cristianismo n\u00e3o reside num descerramento constante e suave daquilo que j\u00e1 se fazia presente; antes, tem coer\u00eancia por causa de sua capacidade de absorver inova\u00e7\u00f5es (p. 12). Um tradicionalista n\u00e3o suporta inova\u00e7\u00f5es. O tradicionalismo \u00e9 \u201cmovido por uma nostalgia doentia por algo rememorado desde a inf\u00e2ncia, ou algo quase rememorado a partir de um lugar pouco al\u00e9m do limiar da primeira mem\u00f3ria que se tem\u201d. Para os convertidos, em especial, o tradicionalismo torna-se um tipo de ressentimento, \u201cuma feroz ader\u00eancia a uma vers\u00e3o amplamente simplificada e fabulosa da confiss\u00e3o para a qual o convertido se dirigiu, saindo de outra confiss\u00e3o que o deixou cruelmente desapontado\u201d. Em vez de permitir que a realidade o desencante dessa ilus\u00e3o, o tradicionalista se aferra a \u201cum quadro da f\u00e9&#8230; frugalmente estreito e confortavelmente familiar\u201d. Frequentemente, o tradicionalista n\u00e3o mergulha realmente nas profundezas estranhas e misteriosas da hist\u00f3ria da igreja; antes, apega-se ao passado recente como se <em>fosse<\/em> a pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o\u201d (p. 13-14).<\/p>\n\n\n\n<p>A r\u00e9plica de Newman certamente incluiria um apelo \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o que o Esp\u00edrito d\u00e1 \u00e0 igreja, mas n\u00e3o creio que isso salvaria sua teoria. O Esp\u00edrito \u00e9 o Esp\u00edrito da surpresa, que sopra onde quer e estala os vincos do passado para fazer novas coisas. Parece muito improv\u00e1vel que o Esp\u00edrito do Deus vivo seria t\u00e3o previs\u00edvel quanto sugere a teoria da tradi\u00e7\u00e3o de Newman. O Esp\u00edrito preserva a igreja na verdade, decerto; mas muitas vezes tem-se a impress\u00e3o de que o Esp\u00edrito a deixa livre.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 luz do argumento de Hart, fica claro que o protestantismo \u00e9 mais suscet\u00edvel ao tradicionalismo do que o catolicismo ou a ortodoxia. Estando enraizada nos credos ecum\u00eanicos, a teologia ortodoxa n\u00e3o tem determina\u00e7\u00f5es autorizadas em v\u00e1rias quest\u00f5es e assim \u00e9 mais livre para absorver inova\u00e7\u00f5es. A tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica \u00e9 fixada de modo mais preciso, mas ainda deixa muitas quest\u00f5es em aberto e, nos \u00faltimos anos, tem aceitado uma distin\u00e7\u00e3o flex\u00edvel entre a doutrina e sua formula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>As tradi\u00e7\u00f5es fundantes do protestantismo t\u00eam uma fixidez confessional abrangente que nem o catolicismo nem (especialmente) a ortodoxia possui. Os protestantes t\u00eam respostas determinadas para muitas quest\u00f5es teol\u00f3gicas. H\u00e1 vantagens nessa abrang\u00eancia. Mas, paradoxalmente, faz com que a tradi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica que parece a mais male\u00e1vel seja, na pr\u00e1tica, a mais r\u00edgida.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto original: Peter Leithart David Bentley Hart diz muitas coisas perspicazes acerca da tradi\u00e7\u00e3o e tradicionalismo na se\u00e7\u00e3o inicial de Tradition and Apocalypse [Tradi\u00e7\u00e3o e apocalipse], sua nova obra. 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