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Análise

A Tentação de forjar um Jesus à nossa imagem e semelhança

Em nossa tentativa humana de forjar ídolos, fragmentamos aspectos da realidade e os transformamos em referências últimas de nossas vidas. Criaram-se “Cristos” forjados ao bel-prazer da demanda da clientela do forjador.

Êxodo 32

1 Mas vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, acercou-se de Arão, e disse-lhe: Levanta-te, faze-nos deuses, que vão adiante de nós; porque quanto a este Moisés, o homem que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe sucedeu.

2 E Arão lhes disse: Arrancai os pendentes de ouro, que estão nas orelhas de vossas mulheres, e de vossos filhos, e de vossas filhas, e trazei-mos.

3 Então todo o povo arrancou os pendentes de ouro, que estavam nas suas orelhas, e os trouxeram a Arão.

4 E ele os tomou das suas mãos, e trabalhou o ouro com um buril, e fez dele um bezerro de fundição. Então disseram: Este é teu deus, ó Israel, que te tirou da terra do Egito. […]

7 Então disse o Senhor a Moisés: Vai, desce; porque o teu povo, que fizeste subir do Egito, se tem corrompido,

8 E depressa se tem desviado do caminho que eu lhe tinha ordenado; eles fizeram para si um bezerro de fundição, e perante ele se inclinaram, e ofereceram-lhe sacrifícios, e disseram: Este é o teu deus, ó Israel, que te tirou da terra do Egito.

É provável que muitos dos leitores já tenham se deparado com esta passagem bíblica e até mesmo se viram condenando igualmente o povo de Israel que, recém-saído do Egito no qual estavam em regime de escravidão, viu obras miraculosas diretamente realizadas pelas mãos divinas e estava a caminho de uma terra “prometida” onde poderia repousar e nela edificar morada para si e suas gerações vindouras, tendo o Deus onipotente, onisciente e onipresente como centro de sua existência, legislador e guardião.

Nosso intento aqui, neste breve texto, não é fazer um exercício exegético do evento narrado, nem mesmo atentarmo-nos detidamente para o evento em si e seu contexto histórico e geográfico maiores e menores, mas mostrar como tal atitude, quase compulsiva, de desviar-se da adoração verdadeira e sincera, é uma tentação recorrente, tendo afligido as gerações posteriores e perpetuando-se até nossos dias; de modo que deveria ser alvo de nossa constante observância para que não caiamos no mesmo erro. E, ainda que tenhamos caído, tenhamos de Deus misericórdia em Cristo para receber a iluminação do Espírito Santo, para que possamos ver nossos passos errados e voltarmo-nos para o caminho da simplicidade do Evangelho.

A narrativa bíblica em si é clara e elucida o ocorrido com detalhes relevantes para compreensão completa do evento. O povo israelita, insatisfeito com a demora de Moisés (que intermediava junto ao povo e Deus) reclama a Arão que erija para toda a coletividade não somente um, mas vários deuses (apesar de o número de deuses diante do ato idólatra não ser relevante ao caso, muito embora, seja demonstrativo da sede e a compulsão que nutria o povo por adoração aos ídolos). Arão, na ausência de Moisés, conclama os israelitas a agruparem-se a entregarem em suas mãos o ouro que possuíssem. Uma vez em posse do ouro, fundiu um bezerro de ouro e anunciou ao povo: “Este é teu deus, ó Israel, que te tirou da terra do Egito”, entregando um objeto para a sede idólatra do povo. É curioso que a própria imagem do bezerro, o animal bovino em si, servia de símbolo para a imagem sagrada em representação do deus egípcio Ápis, ligado à fertilidade e à terra. Apesar desta coincidência e do fato de Israel ter sido recentemente retirado do Egito, não podemos ser levados à conclusão inequívoca de que houve essa influência egípcia na forja do bezerro pelos israelitas. A idolatria episódica do povo teve seu fim quando Moisés desce do Monte por ordem divina e intercede pelo povo alcançando misericórdia.

Esse é apenas um dos relatos de idolatria que se pode verificar nas Escrituras, seja quando o próprio povo de Israel incorre em tal prática ou quando povos vizinhos a promovem e incentivam, tais como a disputa entre Elias e os seguidores de Baal e os atos de renovação cívica e espiritual no reinado de Josias com a retirada de todos os ídolos e altares com zelo ímpar.

O reformador genebrino João Calvino (1509–1564), em sua obra Institutas da Religião Cristã, argumenta que “o pensamento humano é, por assim dizer, uma eterna fábrica de ídolos” (Inst. I, 11, 8). Na análise acurada do teólogo e reformador, a condição humana agora, a partir de seu estado pós-queda, está marcada por uma sede muitas vezes saciada por formas equivocadas e heréticas de adoração e que leva a humanidade a se prostrar diante de ídolos fabricados por suas próprias mãos, incapazes de fazer-lhes qualquer bem ou mostrar-lhes o caminho da salvação; pelo contrário, apenas revelam a deturpação da natureza humana que busca em imagens, símbolos e sentimentos suprir necessidades e circunstâncias que somente podem ser direcionadas e supridas por Deus em Cristo na ação do Espírito Santo. A humanidade muitas vezes forja ídolos para lhe fornecerem a falsa segurança em face das contingências cotidianas, do desespero, de suas expectativas, seus propósitos e necessidades.

O próprio Cristo deparou-se com esta condição humana quando indagou seus discípulos sobre quem o povo acreditava que Ele seria. Apresentaram uma multiplicidade de respostas; alguns diziam ser Cristo João Batista, outros Elias e, um dentre os profetas. Somente Pedro apresentou Jesus como de fato ele era, é e será eternamente: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo” (Mc. 8. 28–29; Mt. 16. 13–17). Todas as demais visões sobre Cristo eram ou deturpações ou fragmentações, desejos e aspirações sobre quem desejavam que Cristo fosse para eles. Toda esta visão fragmentária trazia aspirações e distorções sobre a realidade. Muitos não entenderam suas palavras, como quando se postou diante do povo e disse “Derribai este templo, e em três dias o levantarei” (Jo 2.19); muitos o interpretaram literalmente, mas, na verdade, Cristo estava referindo-se ao templo de seu corpo, ao evento de sua ressureição, central para teologia cristã e para todo o cristão ao demonstrar a vitória de Cristo sobre a morte.

Tal incompreensão e surdez se manifestam quando as analisamos à luz das Escrituras, haja vista que o próprio profeta dito messiânico, Isaías, havia pronunciado: “Vai, e dize a este povo: Ouvis, de fato, e não entendeis, e vedes, em verdade, mas não percebeis. Engorda o coração deste povo, e faze-lhe pesados os ouvidos, e fecha-lhe os olhos; para que ele não veja com os seus olhos, e não ouça com os seus ouvidos, nem entenda com o seu coração, nem se converta e seja sarado” (Is. 6.9–10); “Quem deu crédito à nossa pregação? E a quem se manifestou o braço do Senhor?” (Is. 53.1).

A real apreensão de Jesus por parte de Pedro não se realizou por méritos próprios e fiados em sua estrita racionalidade; o próprio Cristo afirma que essa vigorosa confissão foi objeto de revelação, não “a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos céus” (Mt. 16.17). Cristo, o Filho do Deus vivo, isto é, sua apreensão integral, não fragmentária e/ou deturpada foi avalizada como pedra fundamental para o estabelecimento e fortalecimento da igreja: “e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt. 16.18). Compreender Cristo, sua igreja e seu fundamento dessa forma, sem deturpações, fragmentos, ou vilipendiando-a de acordo com as paixões humanas e suas utopias e desejos, é fundamental para a permanência da igreja nos moldes e simplicidade evangélicos.

Hodiernamente, nossa tentativa humana de forjar ídolos para nossa adoração permanece. Fragmentamos aspectos da realidade e os transformamos em referências últimas de nossas vidas; vivemos vidas forjadas por nós mesmos em uma ilusão de completude, mesmo tendo anulado qualquer aspecto de transcendência de nossas vidas. Consumo, mídias e redes sociais, política, economia, bem-estar a qualquer custo, viraram altares e ídolos do e no coração humano, nos quais todos sacrificam a si próprios ou aos seus mais íntimos desejos idólatras. O próprio Cristo não foi isento de todo este despojo e deturpação. Criaram-se “Cristos” forjados ao bel-prazer da demanda da clientela do forjador. O Cristo socialista, Cristo liberal, Cristo conservador (não se preocupam com as anacronias ou com as indesculpáveis ou pérfidas exegeses). Cristos que chancelam uma vida de consumo ou de espetáculo, na qual o cristão pode fingir sua vida midiática e criar para si uma persona totalmente diferente da que deveria ser e, até mesmo, da persona que é, já que quase nunca se apresenta midiaticamente nas situações cotidianas e comuns, mas sempre com uma alegria fugidia cuja efemeridade é alimento para todos os “seguidores”. As mídias e redes sociais, para alguns cristãos, tornaram-se uma armadilha (o que é lamentável), pois não souberam lidar com as ferramentas advindas da graça comum divina para um uso e entretenimento sadios; antes, tem se transformado em um palco de belicosidade e apresentação desses “Cristos” forjados, em que cada um apresenta qual fragmento ou deturpação (ou desejo íntimo de seu forjador) é mais consentâneo com uma realidade mais complexa que a maioria deles pode conceber.

Infelizmente, pastores estudiosos e líderes têm se imiscuído em tal idolatria, quando arvoram de sua titulação acadêmica para menosprezar ou contrapor-se a outras pessoas em vez de apresentarem uma argumentação cristã sólida e consistente; ou ainda transformarem seus sonhos, desejos, carreiras e currículos de forma tão gananciosa nesta forja de Hefesto que nem ainda alcançaram seu intento e já tem a necessidade de anunciar aos “seguidores” que são candidatos a algo ou que pretendem fazer algo, como se necessitasse tocar trombetas a todo passo que dessem. É uma triste realidade, pois estamos forjando “Cristos validadores” ou legitimadores para todas as práticas que temos como uma forma de fugirmos da necessária atitude de confrontar nossos pecados. Somos cristãos, por conseguinte, salvos em Cristo, mas nossa natureza pecaminosa bate à nossa porta constantemente, mais que imaginamos.

Não podemos criar escapes ou fragmentar as Escrituras para fugir de nossos pecados ou da necessidade de encará-los. Não podemos fragmentar as Escrituras, o Logos divino, a Verdade encarnada para satisfazer nossas vontades mais íntimas, pueris, sórdidas ou até mesmo bem-intencionadas. Não cabe a nós interpretarmos e à luz de nossas experiências e vontades e sim nossos caminhos e desejos à luz de Cristo, um Cristo vivo, integral, que não se deixa submeter às muitas fragmentações, relativismos ou absolutizações hodiernas. É, pois, um Evangelho simples e puro, mas desfragmentado.


Thiago Moreira é Doutor em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora/MG e membro da Igreja Reformada Ortodoxa.

Foto do post por Arturo Rey no Unsplash

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