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Reforma e História

Peter Leithart e Kevin Vanhoozer, dois importantes teólogos protestantes contemporâneos, há pouco mais de três anos, tiveram uma agradável conversa sobre o destino do protestantismo.

A questão central, que orientou toda a discussão, havia sido esta: o projeto da Reforma, visto hoje em retrospectiva, está perante seu terminus [fim] ou seu télos [cumprimento]? Dito de outro modo, é possível que estejamos, segundo esses teólogos, diante desta alternativa:

  1. o protestantismo é uma espécie de andaime, que será retirado tão logo se conclua a obra de reforma da igreja; Essa visão é positiva num aspecto: mostra que os reformadores originalmente não buscavam uma cisão, uma divisão no seio da Igreja Ocidental, mas simplesmente apresentavam linhas de forças que atravessariam toda a teologia e vida eclesiástica, a fim de renová-las, de “reconciliá-las” com a mensagem bíblica, que garante nossa continuidade e unidade com os apóstolos e portanto nossa catolicidade. Nesse sentido, o protestantismo teria cumprido seu propósito, seu télos, assim que todas as igrejas, ou ao menos sua maioria, tivessem reconhecido o papel e autoridade superior (mas não exclusiva) das Escrituras na organização eclesiástica e na formulação da teologia. Desse modo, ainda que as diferenças se mantivessem, bastava a igreja manter-se centrada em torno da Bíblia e dos sacramentos, e o protestantismo se dissolveria, uma vez que teria cumprido sua missão.
  • Ou, com a crise que o protestantismo hoje enfrenta (assim como outras tradições cristãs), precisamos aceitar que o projeto dos reformadores chegou agora ao seu fim, e, a despeito de seus esforços e méritos (afinal, o protestantismo, com suas missões, internacionalismo e uso da imprensa, levou o cristianismo aos quatro cantos da terra), a tradição protestante encara agora seu terminus, um beco sem saída. Obviamente, isto não implica que as denominações protestantes desaparecerão e não haverá mais conversões a essa tradição… Na verdade, essas comunidades permanecerão assim talvez até ao fim dos tempos, porém não mais com o ímpeto e propósito de servirem de andaime para a reforma da Igreja, mas apenas como núcleos de fé que, sim, evangelizam e crescem, porém sem se esforçarem pela reunificação da Igreja.

Esses dois caminhos – que talvez não sejam os únicos – são igualmente persuasivos, e cada um tem ao seu lado uma série de evidências para convencer-nos. O grande problema, no entanto, é que o protestante do século XXI, assim como os católicos romanos e os ortodoxos, não mais vivem no domínio semântico, cultural e social no qual viveram os reformadores.

Pois, afinal, católicos e protestantes, nos séculos XVI e XVII, compartilhavam não somente de um núcleo de fé,[1] de doutrinas basilares e práticas litúrgicas semelhantes, mas também tinham em comum uma série de comportamentos, valores morais, noções e princípios sociais e mesmo perspectivas semelhantes ou idênticas sobre o universo e a natureza.

O cristão do século XXI (a despeito da tradição a que pertence) vive num sistema ético e intelectual que, muitas vezes, se mostra hostil não às particularidades de sua fé, mas à própria fé. Ao contrário do que muitos cristãos aparentemente creem, não é apenas a ética sexual cristã que destoa e “repugna” aos não cristãos deste século. Antes, nesta era do utilitarismo, a caridade cristã, que pratica o amor da autodoação e da disponibilidade, é tida ou como ingenuidade, ou como irresponsabilidade (conforme se vê na crítica de muitos liberais, que veem a dádiva e o cuidado dos pobres como antinatural); ou, ainda, nesta era da indignação, a Eucaristia (a ação de graças), feita à mesa do Senhor, é vista como alienação ou leniência para com os males do mundo.

Há muitos inimigos à porta, e é ainda necessário que a igreja demonstre que as “lutas de classes”, as oposições na arena pública e as cisões sociais só são remediadas pela comunhão e unidade espiritual em Cristo Jesus. É ele que nos serve de mediador entre Deus e demais seres humanos. A unidade na fé, no batismo e na Eucaristia continua sendo (e sempre será) uma vitória e testemunho contra as obras do Diabo, que trabalha sempre com a acusação, com a fragmentação e divisão tanto do indivíduo quanto do corpo social.

Assim, a Reforma Protestante continua tendo seu valor, conforme nos lembra que o sacramento é sempre uma união entre palavra, fé, ação e elemento material (pão e vinho). Deus transmite sua graça por meios físicos a pessoas reais – a Cidade de Deus é espiritual, mas se manifesta na vida cotidiana e concreta de homens e mulheres que vivem na história. E estes anunciam que a Palavra de Deus, embora vinda da eternidade, se dirige e altera radicalmente esta história, como se viu no século XVI e como talvez vejamos (se esta é a vontade divina) neste século. 


[1] Lutero, Calvino, Bucer, Melâncton e outros asseveram a autoridade dos concílios ecumênicos e suas determinações teológicas que guiaram a igreja ao longo, bem como a necessidade dos sacramentos para a integração ao Corpo de Cristo.

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