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Resenha de “O mundo e a pessoa”, de Romano Guardini

O Mundo e a Pessoa | Romano Guardini

Nas décadas que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial, não raro, os teólogos das diversas tradições cristãs – levando em consideração as visões ideológicas e filosóficas acerca do homem das décadas precedentes, e buscando uma resposta ou ao menos uma linha de sentido que ajudasse as comunidades religiosas e mesmo humanistas a compreenderem o incontornável processo de desumanização dos totalitarismos – apresentaram propostas tímidas e apenas ensaiaram que se reconhecesse um humilde lugar para a visão cristã da personalidade dentre as demais antropologias filosóficas que então grassavam.

Muitos pensadores cristãos diziam, simplesmente, que o entendimento bíblico acerca do ser humano seria, se não um antídoto, ao menos um paliativo para os processos de despersonalização que haviam se iniciado nos nazifascismos e no comunismo – especialmente por meio da “propaganda” e da difusão de ideias parasitárias mediante os meios de comunicação em massa –, assim como para os ritmos antinaturais que as forças industriais e tecnocráticas então impunham aos seres humanos.

Poucos filósofos ou teólogos cristãos, no entanto, se dedicaram (arriscadamente) à retomada ou atualização de uma antropologia filosófica cristã, que afirmasse, a partir das Escrituras e da tradição, quem é o homem e qual é o fim de sua existência. É o caso de Romano Guardini, que, em 1939, ano de início da Segunda Guerra Mundial, publicou sua célebre obra O mundo e a pessoa: ensaios de uma teoria cristã do homem.

Para Guardini, as indagação acerca da natureza e finalidade humanas estariam evidentemente alicerçadas no ato de sua criação à imagem e semelhança de Deus, de modo que o ser humano sempre se constitui a partir de uma relação com sua Origem, seja por meio da submissão amorosa, da indiferença ou da revolta. Essa relação vertical com a Pessoa Absoluta, diz-nos ele, se refrata na comunhão horizontal com os semelhantes, pois “o destino pessoal apenas surge na relação ‘eu-tu’ em que os dois seres enfim desarmados estão abertos um ao outro — ou, então, na relação inacabada em que o apelo do ‘eu’ não encontra resposta”.

Ora, Guardini é um observador arguto do mundo moderno, e por isso rejeita, em sua argumentação sempre sofisticada, as enumerações prontas e fáceis dos vícios e virtudes de sua época. Pelo contrário, sua obra é, com efeito, uma teoria cristã, conduzida por um raciocínio que jamais repousa na imanência.

Nesse sentido, embora reconheça pontos positivos no ideal da liberdade e autonomia modernas, Guardini contrapõe-se à visão moderna do homem, que geralmente parte de uma autodeterminação radical e caprichosa e concebe a personalidade antes como projeto do que como lócus de reconciliação entre o visível e o invisível (e como polo de influxo da graça), e afirma peremptoriamente que “a soberania do homem sobre o mundo só é justificada, e, até, somente possível, graças à sua obediência em relação a Deus”. E mais: perante a imagem de um mundo que, na perspectiva secularista, aparentemente se desfaz, o teólogo nos relembra que “o criado só existe ‘perante ele [Deus]’, e subsiste ontologicamente ‘na obediência’. E é precisamente por isso que o mundo é o que é e que é real enquanto mundo… Só a partir de Deus pode o mundo constituir realmente o objeto de uma experiência”.

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Texto apareceu originalmente no site da Editora Cristã Monergismo, em sua lista dos melhores livros de 2021.

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